Manaus (AM) – A combinação entre disputas políticas acirradas, histórico de violência eleitoral, presença do crime organizado e deficiência no policiamento local levou 33 municípios do Amazonas a pedirem reforço das Forças Federais para as eleições de 2026. As solicitações feitas por juízes eleitorais ao Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) revelam um cenário de preocupação com a segurança e a garantia da ordem em cidades espalhadas por todas as regiões do estado.
Os municípios que solicitaram reforço Federal são:
O crescimento dos pedidos acompanha uma tendência observada nos últimos pleitos. Nas eleições municipais de 2020, apenas seis municípios amazonenses receberam operações de Garantia da Votação e Apuração (GVA). Em 2022, o número subiu para 24 municípios. Já nas eleições de 2024, foram 37 cidades contempladas com apoio federal.
Conflitos eleitorais e crime organizado preocupam em Manacapuru, Anamã e Caapiranga
Uma das justificativas mais detalhadas foi apresentada pelo juiz eleitoral Marco Aurélio Plazzi Palis, da 6ª Zona Eleitoral, responsável pelos municípios de Manacapuru, Anamã e Caapiranga.
Segundo o magistrado, a região possui grande extensão territorial, localidades urbanas e rurais de difícil acesso e forte dependência do transporte fluvial, fatores que aumentam a complexidade logística da atuação da Justiça Eleitoral.
No caso de Manacapuru, o juiz cita um histórico recorrente de ocorrências durante os períodos eleitorais, incluindo denúncias de compra de votos, aglomerações, ameaças a autoridades, registros envolvendo armas brancas e armas de fogo, além do intenso acirramento político-partidário.
O magistrado destaca ainda que, nas eleições municipais de 2024, houve necessidade de presença da Força Federal para garantir a ordem pública e a regularidade do pleito.
Já em Anamã e Caapiranga, foram relatados registros de conflitos eleitorais, denúncias de captação ilícita de sufrágio, intimidação de eleitores e ameaças a agentes públicos.
Outro fator considerado crítico pela Justiça Eleitoral é a localização estratégica da região, marcada pela intensa circulação fluvial. Segundo o pedido, as rotas são utilizadas por organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas, transporte clandestino e outras atividades ilícitas, elevando o risco de perturbação da ordem pública durante as eleições.
Além disso, o juiz afirma que o efetivo das forças de segurança locais é insuficiente para atender às demandas extraordinárias geradas pelo processo eleitoral.
Novo Aripuanã registra histórico de violência política
Na 29ª Zona Eleitoral, o juiz Luis Cláudio Cabral Chaves fundamentou o pedido para Novo Aripuanã destacando episódios de violência registrados em eleições anteriores.
Entre os fatos apontados estão o incêndio no cartório eleitoral do município e tentativas de agressões contra autoridades locais.
O magistrado ressalta ainda que Novo Aripuanã possui 13.777 eleitores distribuídos em 44 seções eleitorais e nove locais de votação espalhados por áreas urbanas e rurais de difícil acesso, o que reforça a necessidade de reforço especializado para garantir a segurança do processo eleitoral.

Mineração e áreas isoladas estão entre os fatores em Nova Olinda do Norte
No município de Nova Olinda do Norte, o juiz eleitoral Pedro Ésio Correia de Oliveira apontou uma combinação de fatores logísticos, estruturais e políticos para justificar o pedido.
Atualmente, o município possui 29 locais de votação, dos quais 23 estão situados na zona rural. Dez dessas localidades são consideradas de difícil acesso.
O magistrado também destaca o reduzido efetivo da Polícia Militar e afirma que parte dos guardas municipais pode não oferecer a necessária imparcialidade para atuar na segurança do pleito devido ao envolvimento direto do poder municipal na disputa política.
Outro aspecto citado é o interesse crescente de grupos políticos em razão da exploração da silvinita, minério utilizado na produção de fertilizantes e associado às perspectivas de desenvolvimento econômico da região.
Há ainda uma situação específica envolvendo a comunidade localizada na região do Rio Abacaxis. Uma decisão judicial impede a atuação da Polícia Militar na área, onde funciona um local de votação com cinco seções eleitorais e mais de 1,2 mil eleitores. O acesso exige cerca de três horas de deslocamento fluvial a partir da sede do município.
Segundo o juiz, a presença da Força Federal foi fundamental nos pleitos de 2020, 2022 e 2024 para garantir equilíbrio e isonomia na disputa eleitoral.
Autazes mantém tradição de apoio federal desde 2004
Também sob responsabilidade da 35ª Zona Eleitoral, o município de Autazes apresentou justificativas semelhantes.
A cidade possui 29 locais de votação, sendo 23 em comunidades rurais e 18 classificadas como de difícil acesso.
O juiz Pedro Ésio Correia de Oliveira destaca que o efetivo policial local é insuficiente para atender toda a demanda eleitoral, especialmente nas áreas mais remotas.
Além das dificuldades estruturais, o magistrado aponta a crescente movimentação política relacionada à exploração da silvinita na região e relembra que Autazes recebe apoio das Forças Federais desde as eleições municipais de 2004.
Guajará e Ipixuna enfrentam desafios em comunidades indígenas
Na 45ª Zona Eleitoral, o juiz David Nicollas Vieira Lins solicitou reforço para os municípios de Guajará e Ipixuna.
Guajará possui aproximadamente 12.181 eleitores distribuídos em 40 seções eleitorais, enquanto Ipixuna conta com cerca de 11.578 eleitores em 38 seções.
Os dois municípios possuem diversos locais de votação na zona rural e enfrentam limitações no efetivo policial.
Em Ipixuna, a principal preocupação está relacionada à Aldeia Piau, onde vivem aproximadamente 700 eleitores indígenas atendidos por duas seções eleitorais instaladas na Escola Municipal Cândido Rondon.
Segundo o magistrado, a comunidade não permite a entrada de policiais militares desde um episódio de violência envolvendo um policial e um indígena que resultou na morte deste último.
O histórico levou a Justiça Eleitoral a adotar medidas especiais em eleições anteriores. Em 2024, por exemplo, houve destacamento de militares do Exército Brasileiro para os dois municípios e envio de agentes da Polícia Federal especificamente para atuar na Aldeia Piau.
Distâncias e isolamento dificultam resposta rápida
Em outro pedido encaminhado ao Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), magistrados destacam que as grandes distâncias e a dificuldade de deslocamento entre comunidades tornam praticamente impossível uma reação rápida das autoridades em caso de tumultos ou incidentes durante o pleito.
Os juízes argumentam que a presença das Forças Federais exerce importante efeito preventivo e inibitório, especialmente em municípios que registraram episódios de violência eleitoral no passado.
Também é ressaltado que o efetivo das forças de segurança locais não seria suficiente para garantir a lei e a ordem diante de possíveis conflitos durante a votação e a apuração.

Decisão final caberá ao TSE
Após análise pelo TRE-AM os pedidos poderão ser encaminhados ao Tribunal Superior Eleitoral, responsável pela autorização do emprego das Forças Federais nos municípios considerados mais sensíveis durante o processo eleitoral.
Caso sejam aprovadas, as tropas deverão atuar nos dias que antecedem e durante o primeiro turno das eleições, marcado para outubro de 2026, além de eventual segundo turno, garantindo a segurança de eleitores, mesários, servidores da Justiça Eleitoral e demais envolvidos na realização do pleito.
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A palavra ‘Jamaxi’ vem de origem indígena. É conhecido como o cesto, no qual, os seringueiros carregavam suas mercadorias.
