Manaus (AM) – Em Manaus o desafio do saneamento também passa pela capacidade de adaptar a infraestrutura às características do território, atender comunidades instaladas em áreas de difícil acesso e preparar o sistema para um cenário de eventos climáticos cada vez mais extremos.
Os números mostram a dimensão dessa transformação. A cobertura de abastecimento de água na capital amazonense ultrapassou 99% dos domicílios em 2023, atingindo o patamar considerado de universalização, índice mantido em 2024, 2025 e no início de 2026.
No mesmo período, porém, o esgotamento sanitário avançou em ritmo diferente: saiu de 16% em 2018 para aproximadamente 40% ao final de 2025, percentual mantido no início de 2026.
Depois de ampliar significativamente o acesso à água tratada, o desafio agora é fazer a coleta e o tratamento de esgoto avançarem na mesma direção.
Mais água, mais rede e menos perdas
Desde 2018, quando a Águas de Manaus assumiu os serviços de abastecimento e esgotamento sanitário em Manaus, a extensão da rede de água passou de 3,7 mil quilômetros para 4,2 mil quilômetros em 2026.
No esgotamento sanitário, a rede saltou de 536 quilômetros para 1,1 mil quilômetros no mesmo período.
Atualmente, mais de 2,1 milhões de pessoas são atendidas com água e mais de 800 mil possuem acesso ao sistema de esgotamento sanitário.
Outro indicador importante é o índice de perdas na distribuição. Em 2018, 74,45% da água distribuída era registrada como perda. Em 2026, o índice informado é de 45,1% uma redução de quase 30 pontos percentuais.
Todos os dias, mais de 700 milhões de litros de água são captados e tratados. Desse volume, cerca de 630 milhões de litros têm origem no Rio Negro.
A operação inclui ainda uma média de 1,7 mil reparos de vazamentos de rede e ramais de água, com tempo médio de atendimento de até 48 horas.
Manaus também recebeu investimentos para infraestrutura. Entre 2018 e 2026, foram aplicados R$ 2,4 bilhões nos serviços de água e esgoto, segundo a Águas de Manaus.

Expansão da infraestrutura
A expansão de Manaus cria um desafio permanente. As áreas que mais preocupam estão nas zonas Norte e Leste, onde comunidades recém-formadas ou regularizadas crescem em velocidade superior à capacidade tradicional de expansão da infraestrutura.
Becos, palafitas e rip-raps exigem soluções diferentes das utilizadas em áreas urbanas convencionais. Cerca de 180 mil pessoas vivem atualmente em áreas de expansão urbana consideradas prioritárias para a ampliação do abastecimento.
Foi justamente nessas áreas que a expansão da rede exigiu adaptações técnicas. Desde 2018, mais de 200 mil moradores de regiões vulneráveis passaram a ter acesso à água tratada, com a instalação de mais de 200 quilômetros de redes.
As equipes precisaram desenvolver soluções específicas para levar água 24 horas por dia, com pressão adequada, a becos, palafitas, rip-raps e margens de igarapés.
O Beco Nonato, na Cachoeirinha, é um exemplo dessa transformação. A comunidade, formada por palafitas, recebeu solução estruturada de abastecimento de água e, a partir de 2023, também passou a contar com coleta de esgoto. A experiência foi reconhecida com o Prêmio Cases de Sucesso em Água e Saneamento, concedido pelo Pacto Global da ONU.

O esgoto é a próxima fronteira
Se a universalização da água representa uma conquista, os números do esgotamento sanitário mostram o tamanho do próximo desafio.
A cobertura, que era de apenas 16% em 2018, chegou a aproximadamente 40% ao final de 2025.
A estratégia apresentada para os próximos anos prevê cerca de R$ 2 bilhões em investimentos, a implantação de milhões de metros de redes coletoras e a construção ou ampliação de pelo menos 70 Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs).
A meta é ampliar o acesso a mais de 90% da população em menos de dez anos.
Uma das principais obras é a ETE Raiz, construída às margens do Igarapé do 40.
A primeira etapa da estação já ultrapassou 60% de execução e terá capacidade para tratar mais de 230 milhões de litros de esgoto por mês, beneficiando mais de 50 mil moradores das zonas Sul e Leste.
Ao final das quatro fases, a estrutura poderá tratar 31 milhões de litros por dia e atender mais de 220 mil pessoas.
Em comunidades de ocupação mais complexa, o desafio é ainda maior. No Beco São Vicente, no bairro Redenção, a Águas de Manaus implantará 1.200 metros de rede coletora.
Mais de 700 metros já foram executados. A obra deverá beneficiar mais de 600 moradores, com os efluentes encaminhados para tratamento na ETE Parque Mosaico. É a primeira comunidade de rip-rap da cidade a receber esgotamento sanitário.

Quando o clima muda
Nos últimos anos, a cidade enfrentou uma sequência de eventos hidrológicos extremos: cheias históricas em 2021 e 2022 e secas recordes em 2023 e 2024.
Durante a estiagem de 2023 e 2024, o Rio Negro atingiu alguns dos menores níveis registrados desde o início das medições, há mais de um século.
A consequência foi uma mudança na forma de planejar o abastecimento. Em vez de considerar apenas condições médias do rio, o sistema passou a incorporar equipamentos e procedimentos capazes de funcionar em situações extremas.
Durante a seca de 2023, foram reforçadas as bombas de captação e instaladas balsas com sistemas auxiliares capazes de captar água independentemente do nível do rio.
No ano seguinte, no Complexo da Ponta do Ismael responsável pelo atendimento de mais de 70% da população de Manaus foram instaladas três bombas anfíbias e 13 das 16 bombas verticais foram rebaixadas para permitir a captação em pontos mais profundos.
A adaptação continua. Em agosto de 2026, duas novas bombas anfíbias foram instaladas na Estação de Tratamento de Água Ponta das Lajes, na Zona Leste, em um investimento superior a R$ 4 milhões.
Os equipamentos podem funcionar submersos ou fora da água, têm vazão de até 6 mil litros por segundo e conseguem captar água em profundidades de até 26 metros.
Desde 2023, mais de R$ 17 milhões foram investidos em equipamentos, adaptações e melhorias no sistema de captação e distribuição para aumentar a capacidade de resposta diante de diferentes cenários hidrológicos. As mudanças climáticas colocam no horizonte um cenário de maior pressão sobre os recursos hídricos.
Um estudo citado nas informações da concessionária, elaborado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, alerta para o risco de escassez crítica de água em Manaus até 2040, associado às mudanças climáticas e ao uso intenso e pouco controlado de poços subterrâneos.
O saneamento deixa de ser apenas uma obra de infraestrutura e passa a ser também uma estratégia de adaptação climática.
Uma rede de abastecimento preparada para períodos de seca, um sistema de esgotamento capaz de impedir que efluentes sejam lançados sem tratamento nos corpos d’água e uma população orientada para o uso consciente da água são partes de uma mesma equação: garantir que o crescimento de Manaus não comprometa os recursos naturais que sustentam sua população.

O desafio de universalizar sem deixar ninguém para trás
A expansão da rede de água alcançou comunidades como Parque das Tribos, Parque das Nações Indígenas, Coliseu, João Paulo, Cidade Alta, Buritis e Itaporanga. No esgotamento, o Beco Nonato e o Beco São Vicente mostram que soluções específicas podem levar serviços de saneamento a territórios sem infraestrutura convencional.
Para as próximas etapas, o programa +Águas prevê cerca de R$ 100 milhões até 2029 para atender 30 comunidades e beneficiar mais de 180 mil pessoas com abastecimento regular.
Paralelamente, o programa Trata Bem Manaus pretende acelerar a expansão da coleta e do tratamento de esgoto. O desafio de Manaus já não pode ser medido apenas em quilômetros de tubulação instalados.
Precisa ser observado pelo número de pessoas que deixaram de depender de soluções improvisadas, pela quantidade de esgoto que deixou de chegar aos igarapés, pela redução das perdas de água e pela capacidade da cidade de manter o abastecimento mesmo diante de secas extremas.
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