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Jornalistas libertados na Venezuela estão proibidos de falar

Conversamos com parentes de jornalistas recém-liberados da Venezuela; eles ainda respondem a processos e não podem exercer a profissão

Agência Pública por Agência Pública
16/01/2026
em Cotidiano
jornalistas que foram presos não podem falar

Foto: Sindicato Nacional de Trabajadores de la Prensa

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Nas últimas semanas, o governo venezuelano libertou 84 presos políticos – de acordo dados da organização Foro Penal – “para consolidar um novo momento político que permita a convivência, o reconhecimento e o respeito entre os venezuelanos, com cumprimento da lei”, nas palavras oficiais da presidente em exercício, Delcy Rodriguez. Dentre eles, estavam 19 jornalistas.

Segundo dados do Sindicato Nacional de Jornalistas, ainda há 5 jornalistas encarcerados por exercer a profissão. A Agência Pública conversou com repórteres, diretores de veículos e familiares de presos para entender como tem sido a rotina daqueles que insistem em comunicar o que acontece dentro do país.

Após anos de endurecimento do regime, fechamento e repressão a meios, além de leis que igualam informar com “incitação ao ódio”, os profissionais ouvidos pela reportagem relatam um misto de expectativa, ceticismo e uma “esperança que tem que ser mastigada”, nas palavras de um deles.

Mesmo aqueles que foram liberados da prisão não estão livres. Seguem respondendo criminalmente na Justiça venezuelana. Não podem dar declarações, usar redes sociais e têm de se apresentar a cada 30 dias à polícia. Também estão proibidos de deixar o país.

“Eles estão na rua, mas com um tapa-bocas”, resume Vladimir Villegas, ex-congressista e jornalista que, durante muito tempo, foi identificado com o chavismo – chegou a ser presidente da TV Venezolana de Televisión durante o governo de Hugo Chávez – e hoje trabalha para dois meios de comunicação e tem um canal no YouTube.

“A Venezuela é hoje um dos países mais difíceis para se exercer o jornalismo no continente”, explica Artur Romeu, diretor para América Latina da organização Repórteres Sem Fronteiras. “O cenário é de atrofia profunda do ecossistema midiático, resultado de mais de 15 anos de práticas repressivas: asfixia econômica dos meios independentes, leis abusivas, agressões, detenções arbitrárias, exílio de jornalistas e uma precarização generalizada da profissão”.

Ele lembra que existem 497 jornalistas venezuelanos em exílio, o maior número da região. “Uma parte significativa deixou o país por perseguição direta: esses jornalistas eram alvos frequentes de ataques nas redes sociais, ameaças públicas feitas por autoridades, vigilância e campanhas de estigmatização”.

Para ele, “a agressão ilegal dos Estados Unidos e o sequestro de Nicolás Maduro ampliaram ainda mais o cenário de incerteza para a atuação jornalística no país”, uma vez que há incerteza sobre o futuro político e um estado de exceção decretado pelo governo no mesmo dia 3 de janeiro.

Yanela, presa por reportar sobre roubos em Caracas

Dias antes de rever sua filha, havia apenas um fio de esperança na casa de Francis Ramos, que se define como “uma mulher batalhadora”. Ela falou à Agência Pública depois de colocar a neta de 6 anos para dormir.

Sua filha, Yanela Nakary Ramos Mena, ficou presa durante nove meses no Instituto Nacional de Orientação Feminina, em Los Teques, a 30 quilômetros de Caracas, onde vive. Seu marido, Gianni Ángelo González Díaz, foi enviado para a prisão de Rodeo II.

Seu crime? Em abril do ano passado, eles fizeram uma reportagem em vídeo sobre o aumento de casos de roubos de rua em Caracas para o canal de YouTube Impacto Venezuela. Gianno era a câmera e Yanela, a apresentadora. Era um vídeo noticioso, sem nada que chamasse atenção: havia depoimentos de cidadãos que foram assaltados e de um advogado. No final, os jornalistas incluíram uma fala do ministro do Interior, Justiça e Paz, Diosdado Cabello, acusando quem dizia que existiam roubos de estar mentindo.

A reportagem foi acusada de fazer parte de uma “campanha” por portais relacionados ao governo. Pouco depois, o casal foi apreendido pela polícia científica e nunca mais retornou para casa. Foram acusados pelo Ministério Público de “incitação ao ódio” e “difusão de notícias falsas” pela Lei contra os Delitos de Ódio, de 2017.

Durante nove meses, Francis teve que buscar transmitir tranquilidade para a filha do casal: “eu sou o amor do pai e da mãe para ela”, disse. Além de ter que fazer a viagem quinzenal para ver a filha, teve, ainda, que enfrentar um labirinto burocrático kafkiano, cruel de tão sem sentido.

“Às vezes eu nem tenho tempo de chorar. Isso mudou a minha vida. Neste momento, eu digo: eu não sou eu. Eu vivo agora para dar o melhor a Nakary”, disse à Pública.

Francis contou que, durante todos esses nove meses, a filha não conseguiu ter uma audiência sobre seu caso, embora o tribunal tenha agendado três datas distintas. Assim, sua prisão foi se prolongando. “Na primeira vez, não houve ‘expediente’, na outra, estavam em ‘auditoria’. E na última, havia outra coisa que também não resultou em audiência”, conta.

Durante o tempo encarcerada, ela teve uma piora na sua dor nas costas e necessitava atendimento médico devido a uma cirurgia de escoliose, pela qual ela possui parafusos de titânio. Quando foi libertada, explicou a mãe, “agora ela só quer descansar”.

Uma garrafa de champagne para Carlos Julio Rojas

Quando Carlos Julio Rojas saiu da prisão, havia uma garrafa de champagne na geladeira esperando por ele. Na sua última visita à prisão de Helicoide, em Caracas, onde ele ficou encarcerado por mais de um ano e meio, a esposa viu o estado de ânimo do jornalista, que mal continha a alegria. “Ele me agradeceu por tudo isso, porque ele mesmo está surpreso com o que eu pude fazer por ele. Passei por tudo nesses 20 meses: medo, sustos, lágrimas, risos. Houve de tudo”, diz Francy Rojas.

“Hoje ele me diz: ‘Você conseguiu minha liberdade’. Eu digo ‘não, não fui eu’ e ele diz: ‘Você, com sua voz, foi você quem conseguiu, mesmo que você não acredite, foi você.’”

Carlos Julio é um jornalista que sempre incomodou o regime chavista. Apesar de ser especializado em cobrir esportes, ele era membro da direção do a associação laboral Colégio de Jornalistas de Caracas e usava as redes sociais para fazer denúncias contra casos de corrupção envolvendo membros do governo. Carlos acusou os colectivos – grupos de civis armados que respondem à estrutura de segurança pública chavista – de invadirem prédios privados, que depois passavam às mãos de funcionários do Estado.

“Ele é um defensor ferrenho da propriedade privada”, explica a esposa. Por conta dessa denúncia, diz ela, Carlos Júlio foi detido em 15 de abril de 2024, por “homens vestidos completamente de preto, com os rostos tapados”. Foi acusado por terrorismo, conspiração, instigação e associação para cometer crimes, além de tentativa de assassinato de um líder chavista. A Anistia Internacional o reconheceu como prisioneiro de consciência.

Francy Fernandez ficou conhecida no país quando decidiu usar sua voz para ajudar o marido. Quando suspenderam a leitura na prisão, ela organizou uma coletiva de imprensa para denunciar o caso. “Naquela coletiva de imprensa eu disse: ‘Hugo Chávez Frías teve direito a ler um livro [quando esteve preso], porque Carlos Julio Rojas não?’” Sua fala teve tanta repercussão que Rojas recebeu a permissão para ler livros.

Apesar do esposo estar proibido de falar, Francy diz que sente que fez o que tinha de ser feito. “Me vejo há 20 meses atrás e era uma Francy que estava triste, que chorava, que se sentia sozinha. E bom, agora estou 20 meses depois, sou uma Francy que passou de ser a companheira de Carlos Julio a ser a defensora de Carlos Julio”.

“Sinto que fiz o que tinha que fazer”, suspira. “Foi uma experiência tão difícil que tive que lutar até o último minuto”, disse ela à Pública, emocionada, na noite em que seu marido foi libertado da prisão.

Entre a esperança e o medo

A esperança é um sentimento novo para os jornalistas que trabalham na Venezuela, segundo diversos dos entrevistados pela Pública.

Apenas dez dias atrás, no dia 5 de janeiro, quando Delcy Rodriguez tomava posse como presidente, 16 jornalistas foram presos diante do palácio onde ocorria a cerimônia. Frente à promessa de uma mudança de regime depois do sequestro de Nicolás Maduro, foi um balde de água fria para a classe jornalística, uma das profissões que mais sofre a repressão do regime venezuelano. À noite, todos foram soltos.

“Embora tenha se intensificado na administração Maduro, o padrão de repressão também se manteve nos últimos dias”, diz Ana Rodríguez Brazón, jornalista venezuelana e correspondente do jornal colombiano El Tiempo em Caracas.

“O bombardeio [dos norte-americanos] não mudou a estrutura do governo. É a mesma atuação do governo, com muito mais pressão, claro, porque ele tem que evitar qualquer foco de protesto que possa derivar em um maior descontentamento das pessoas”, avalia ela.

Essa estrutura, explica Villegas, está cristalizada em uma variedade de leis que são rotineiramente usadas para criminalizar jornalistas. “A lei contra o ódio, a lei de responsabilidade social em rádio e televisão, reformas do código penal, também a lei antiterrorista. Isto é, há um conjunto de legislações na Venezuela que deveriam ser revogadas porque são inconstitucionais, porque partem da presunção de culpa”, diz ele. “Assuntos de segurança do Estado, conspiração, imagine, associação para delinquir, promoção do terrorismo – são as tipologias de acusações que são feitas contra os jornalistas. E isso gera, claro, muito medo”.

Segundo Edgar Cárdenas, diretor da associação Colégio Nacional de Jornalistas, apenas em 2025 já se contam 111 agressões a jornalistas no país. O Colégio, ao lado de organizações que defendem a liberdade de expressão, faz uma campanha pela libertação imediata dos jornalistas que ainda estão presos, e pelo fim de todos os processos criminais. Segundo ele, há elementos comuns na perseguição aos jornalistas na Venezuela: “as detenções arbitrárias sem ordem judicial, os casos de isolamento e, claro, o próprio atraso no devido processo, incluindo a nomeação dos advogados defensores privados”.

Neirlay Andrade, militante do Partido Comunista da Venezuela e diretora do jornal do partido, Tribuna Popular, diz que não havia nada que justificasse a detenção dos colegas, exceto estarem na rua, exercendo o jornalismo. “Também não estava acompanhada de uma ordem judicial, e sim funcionários, em muitos casos não identificados, os capturaram de uma maneira arbitrária e ilegal. Nossos colegas não têm um advogado de confiança, como indica a lei. Nossos colegas não têm comunicação, às vezes por vários meses, com seus próprios familiares.”

Segundo ela, a repressão do regime é pior no caso de comunicadores populares. “Aqueles que estão vinculados à comunicação popular sofrem assédio direto dos centros de poder para que não documentem nem denunciem as lutas populares”. Segundo ela, “se há um protesto de professores reivindicando salários e nós cobrimos no Tribuna Popular, o governo diz que se trata de terroristas e de fascistas”. Outro exemplo é o acosso contra rádios populares, que podem ter suas licenças revogadas pelo governo.

Para garantir a segurança pessoal, os repórteres foram desenvolvendo maneiras de se protegerem uns aos outros. Desde o dia 3 de janeiro, diz Ana Rodríguez Brazón, há um aumento de presença de civis armados – dos colectivos – nas ruas. “Isso te deixa em uma situação de vulnerabilidade”, diz ela, em especial em casos de jornalistas mulheres.

“O tema da segurança pessoal parece não estar tão garantido neste momento, por isso recorremos sempre a redes de apoio. Os anos nos levaram a estender essas redes de comunicação entre todos os jornalistas. Sobretudo, nós mulheres estamos muito atentas umas às outras”.

A jornalista Gabriela Buada Blondell, do site de Caleidoscópio Humano, lembra que no caso das mulheres as ameaças digitais são também mais violentas. “O assédio digital, ameaças em redes sociais, as campanhas de difamação, e os riscos que isso tudo representam para a integridade física e emocional”.

Cobrindo a invasão americana

No meio disso, os jornalistas venezuelanos precisam seguir fazendo seu trabalho. No dia 3 de janeiro, quando as forças militares dos EUA invadiram Caracas e bombardearam três estados e atingiram bases militares, o aeroporto de Higuerote, o porto de La Guaira e o Instituto Venezuelano de Pesquisa Científica, além de casas de civis, matando mais de 100 pessoas – metade delas, da equipe de segurança de Maduro, alguns deles foram despertados pelos estrondos – e muitos, por dezenas de ligações de conhecidos tentando entender o que estava acontecendo.

Ana Rodríguez Brazón foi despertada pelo barulho das bombas.

“Acordei com a primeira bomba, mas pensei que eram fogos de artifício, porque ainda estávamos em celebrações natalinas. Mas já no segundo impacto, a onda foi muito mais forte e o som… para quem nunca tinha ouvido uma bomba, foi bastante chocante. O que está acontecendo? Onde vai cair a próxima? E realmente, é indescritível, porque o som te penetra, é exatamente como um filme de terror”.

Ela avisou imediatamente ao jornal El Tiempo, na Colômbia – eram quase duas da madrugada – e se pôs a apurar o que estava acontecendo. Para sua segurança, evitou sair à rua naquele momento. “Começaram a tocar os celulares, os vizinhos começaram a acordar, os grupos de WhatsApp começaram a tocar, no prédio se ouvia como os telefones tocavam, as pessoas perguntando… Ouvi algum grito de alguma varanda de pessoas que não sabiam o que estava acontecendo, de alguns que celebravam, outros que gritavam de medo”.

“Esse dia foi um dos dias, acredito eu, em que o sol demorou mais para nascer”, lembra ela.

Ela saiu à rua apenas à tarde, para entender o que estava acontecendo. O que viu a surpreendeu: silêncio. Ana esperava ver uma comoção pública, como ocorreu em 2002, quando Hugo Chávez sofreu um golpe de Estado, que acabou sendo revertido.

“Eu esperava ver um chavismo forte, um chavismo de base replicando o legado de Hugo Chávez”. O que ela viu foram menos de trezentas pessoas em frente ao palácio presidencial de Miraflores. “Muito poucas, de fato, num palanque, sem nenhuma condução de algum líder do chavismo. A realidade dava a entender que os venezuelanos não votaram em Nicolás Maduro, porque se não estariam lá pedindo por seu presidente”, analisa.

Ela conclui que “o silêncio foi muito claro, o silêncio falou e continua falando até hoje”.

Para Neirlay Andrade, o silêncio ecoa também o decreto de estado de exceção, decretado pelo governo interino no mesmo dia 3. “O artigo número 5 fala da possibilidade de responsabilidade penal para aquelas pessoas que celebrem, que exaltem, promovam, ou que estejam de acordo com os bombardeios e com o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores”. Por isso, diz ela, “o silêncio “ensurdecedor” tem a ver com medo de ser criminalizado.

Vladimir Villegas dormiu pouco, pois ligou à meia noite para parabenizar o filho pelo aniversário, naquele mesmo dia 3 de janeiro. Ouviu os estrondos quando se encaminhava para a rádio onde trabalha, mas voltou para casa e passou a reportar o que acontecia através das redes sociais.

“Nos coube então enfrentar, primeiro, mais do que a incerteza, a comoção. O impacto de ver que seu país foi bombardeado. Ainda que se trate de focos muito localizados, muito precisos, mas é seu país, é a Venezuela, é a pátria de Bolívar”, relembra. “É como se o cristal da República tivesse se estilhaçado em pedaços”.

Ele concorda que, em seguida, depois daquele dia caótico, se fez o silêncio. “Não vimos uma sociedade nem celebrando o ocorrido, nem tampouco protestando massivamente”. Para ele, “ainda não despertamos, ou seja, estamos num três de janeiro prolongado, numa letargia.”

O que muda agora?

Agora que muitos dos presos políticos voltaram às ruas, alguns jornalistas acreditam que eles podem ser a chave para uma transição de regime. É o que espera José Gregorio Yépez, diretor do site Contrapunto. “Os presos políticos podem ajudar a conseguir um espaço de encontro, mesmo que apenas por razões humanitárias, para abrir a possibilidade de um diálogo com algum resultado, dentro da conflitividade e da crise multidimensional que o país atravessa”.

Por mais que o regime chavista já tenha passado por muitas fases, Edgar Cárdenas acredita que é fundamental manter a esperança. “Sobretudo acreditar em um futuro que implique prosperidade, que implique o direito à informação. À medida em que continuem existindo jornalistas dispostos a continuar informando, se não for através de um veículo, através das redes sociais, através de um cartaz, de qualquer forma, então a liberdade de expressão continua viva”.

Para José Gregório Yépez, há um longo trabalho a ser feito, e o caminho futuro é claro para os que praticam a profissão. “O que você diria a um cantor, que ele fizesse para ajudar a paz? Poxa, que cante e que cante à paz e que não cante o rancor, não é?”, pergunta.

“Como jornalistas, o que temos que oferecer é o nosso ofício, o que devemos fazer é jornalismo sério e rigoroso. Não podemos fazer outra coisa”.

Por Natalia Viana da Agência Pública

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Curiosidade

A palavra ‘Jamaxi’ vem de origem indígena. É conhecido como o cesto, no qual, os seringueiros carregavam suas mercadorias.

Tags: Agência JamaxiagenciajamaxiCensuraDestaquesInternacionaljornalistasLibertadosManausNotíciasPrisãoVenezuela
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