Na Terra Indígena (TI) Igarapé Lourdes, em Rondônia, membros da comunidade se reúnem para ouvir a palavra de José Palahv Gavião. Professor e líder da cooperativa local, ele fala sobre o passado e o futuro da borracha na Amazônia.
O látex extraído do maior bioma brasileiro foi uma commodity de grande importância no século 19 e no início do século seguinte. Para o povo indígena Gavião, no entanto, a antiga febre pelo produto natural também foi sinônimo de violência, exploração e sofrimento.
Nos dias de hoje, a comunidade busca ressignificar essa relação. Para que isso aconteça, eles retomaram a atividade a partir da geração de renda e da proteção da floresta, sobretudo entre os indígenas mais jovens. De acordo com José Gavião, muitos deles buscam “melhores oportunidades” fora da comunidade — mas, em sua visão, ainda é preciso equilibrar essas ambições com os esforços para proteger a natureza que os sustenta desde cedo.
“Em todas as reuniões de que participo, sempre destaco esse ponto: se a gente não colocar valor nos produtos da Amazônia, não vai demorar muito para ela desaparecer. Isso ajuda a reverter essa mentalidade: quando um coletor de sementes obtém renda com uma árvore, ele não vai querer derrubá-la”, disse o líder comunitário à Mongabay.
Após o primeiro contato com os brancos no começo do século 20, os indígenas Gavião foram submetidos a condições de trabalho exploratórias, sobretudo por seringueiros. No final da década de 1980, porém, esses mesmos profissionais abandonaram a atividade, diante de conflitos de terra e do avanço de projetos externos de desenvolvimento.
Com o tempo, o látex passou a ser coletado em escala industrial, em vastas plantações de seringueira (Hevea brasiliensis), eliminando a necessidade de vasculhar o coração da floresta em busca da seiva leitosa.
Décadas depois, em 2021, José Gavião daria o primeiro passo para resgatar a prática extrativista — dessa vez, sob liderança indígena. Ele foi um dos fundadores de uma cooperativa que passou a trabalhar com árvores da própria floresta, substituindo o uso de espécies cultivadas em plantações.
A partir do novo processo, sua comunidade deu início à coleta e à venda do produto a preços considerados mais justos, por meio de uma parceria com a empresa Mercur e com o projeto Origens Brasil, coordenado pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora).
Apesar do impacto local, a iniciativa do povo Gavião faz parte de um esforço amplo de desenvolvimento da bioeconomia brasileira, cujas bases estruturais alinham o conhecimento tradicional e a proteção do meio ambiente à condição ética de acesso ao mercado.
“Nossa comunidade já sofreu e foi escravizada pelas mãos dos seringueiros”, disse José. “Agora, nossa vida mudou: nós não dependemos mais só da caça e da pesca.”
Um trabalho com ritmo próprio
A rede Origens Brasil se propõe a conectar comunidades originárias a empresas de borracha que buscam processos éticos em suas cadeias de distribuição. A Mercur, por sua vez, atua no estado do Pará desde 2012 e já compra o látex produzido em quatro territórios indígenas.
A gigante do setor, agora, finca suas bases em Rondônia, desenvolvendo operações em cinco terras indígenas, inseridas em um mosaico de áreas protegidas que eles chamam de Território Tupi Guaporé. O projeto em questão ampara a produção anual de cerca de 30 toneladas métricas de látex.
A Mercur começou a adquirir o produto da Amazônia antes mesmo de migrar para produtos sintéticos. Há 14 anos, porém, a companhia mudaria de rumo mais uma vez, retornando às origens — mas, segundo seus representantes, de uma forma ecologicamente correta.
“A gente percebeu que precisava voltar [alguns passos], resgatar esse processo e retomar a compra da borracha natural da Amazônia”, disse Jovani Machado da Silva, analista de vendas da Mercur.
O látex que interessa à empresa é extraído sem causar danos à floresta tropical. Ao mesmo tempo, a firma oferece contratos de longo prazo às comunidades da região, estabelecendo preços mais justos em relação às condições de mercado.
Assim, com o apoio da Origens Brasil, cada produto fabricado pela Mercur é marcado com um QR Code. As informações disponíveis no código permitem aos consumidores rastrear a origem do item e conhecer os profissionais que participaram de seu desenvolvimento.
Há, no entanto, um impasse. Em muitos casos, a realização de projetos econômicos na Amazônia exige uma estrutura (e um ritmo) que funcione à margem do modelo convencional de negócios, conforme explicado pela Mongabay em outras reportagens.
O látex nativo da floresta, por exemplo, não é barato nem fácil de produzir em grande escala, uma vez que a coleta depende de ciclos sazonais. Dessa forma, o volume de entrega é imprevisível, enquanto o transporte é mais demorado e, em muitos casos, mais custoso.
“Existe um desafio inicial: trabalhar no tempo dos povos [indígenas] da Amazônia. Eles têm o próprio ritmo e a própria forma de viver e trabalhar — e a gente não quer interferir”, disse Jovani. “É diferente de trabalhar com a indústria, com escala e prazos fixos de entrega.”
Quando comparada ao látex coletado nos seringais plantados, a versão natural pode custar até três vezes mais. Isso ocorre devido a maiores despesas envolvidas na extração manual — do valor da matéria-prima por si só à dificuldade de obtê-la de forma sustentável em áreas remotas.
Para se adaptar às condições produtivas e complementar seu estoque, a Mercur passou a comprar o produto coletado em Rondônia, além daquele que é produzido nos seringais cultivados do estado de São Paulo.
Sob o modelo de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), a Mercur remunera os seringueiros indígenas não apenas pelo látex coletado, mas também pelos serviços ecológicos prestados à comunidade. De acordo com representantes da empresa, esse custo extra é absorvido em toda a linha de produtos, como parte da estratégia Ambiental, Social e de Governança (ESG, na sigla em inglês) da companhia.
Dessa forma, as comunidades participantes podem triplicar seus ganhos — atingindo valores de venda de cerca de R$ 15 por quilo de látex.
Indo além, a extração do material pode desempenhar um papel importante na conservação do bioma por outras razões. Durante a jornada de coleta, os seringueiros preservam trilhas florestais, ao mesmo tempo em que ficam de olho no corte de madeira e no garimpo ilegal. Os profissionais também aproveitam o embalo para apanhar sementes e plantas medicinais.
Segundo os participantes da iniciativa, o formato também contrasta com as atividades extrativistas predominantes na Amazônia — como a criação de gado, a extração madeireira e a mineração de ouro, práticas que impulsionam o desmatamento e a degradação do solo.
“Nosso povo quer manter a floresta em pé”, disse Heilton Gavião, líder indígena da TI Igarapé Lourdes. “Eles querem explorar, mas com o maior cuidado, sem agredir a floresta — ao contrário de outros, que focam apenas em destruí-la por interesse próprio.”
Bioeconomia sob liderança indígena
Nos últimos anos, o Brasil tem apostado alto no desenvolvimento de sua matriz bioeconômica. Na Amazônia, isso significa garantir apoio e estrutura à subsistência de modelos tradicionais — evitando que, com o tempo, suas práticas sejam substituídas pela economia industrial.
Os exemplos de fontes alternativas de renda para as comunidades vão do artesanato sustentável, feito com madeira morta, à coleta consciente de produtos primários, como o açaí (Euterpe oleracea) e o cacau (Theobroma cacao).
Segundo projeções, o bioma sul-americano poderia gerar até 8 bilhões de dólares anuais por meio da bioeconomia, enquanto o seu ecossistema permaneceria preservado. Especialistas alertam, no entanto, que o empoderamento das comunidades indígenas é fundamental para que esses números sejam alcançados de forma sustentável.
Agora, a nova extração do látex surge como uma alternativa.
Segundo José Gavião, a oferta de preços mais atrativos, que acompanha a bioeconomia amazônica, tem atraído as gerações mais jovens de sua comunidade. Se um produtor obtiver entre 10 e 15 lâminas de látex prensado (300-400 kg), o montante pode render até R$ 10 mil.
Cada vez mais, as comunidades indígenas da Amazônia são levadas a adotar a economia monetária para garantir a própria sobrevivência — só assim podem comprar roupas, alimentos e outros itens essenciais. Nesse sentido, segundo representantes comunitários, o manejo florestal precisa levar essas necessidades em conta.
Muito além de gerar uma nova fonte de renda, a busca pelo látex sustentável conecta os mais jovens a práticas tradicionais que zelam pela floresta. Alguns deles, inclusive, já recebem formação técnica da própria Mercur.
Enquanto isso, e embora haja benefícios perceptíveis, os desafios persistem. Em tempos recentes, a produtividade local foi duramente afetada pela seca e muitas antigas trilhas de extração de látex passaram a precisar de financiamento para serem reabertas.
“Houve uma seca muito forte aqui na Amazônia. Até as seringueiras sentiram. Todas secaram”, disse Heilton. “Também precisamos de apoio financeiro para reabrir antigas trilhas de látex. Ou até abrir novas.”
Apesar dos obstáculos, Heilton enxerga oportunidades no horizonte. “Em pé, a floresta traz mais qualidade de vida ao nosso povo. Nosso trabalho tem esse foco: conscientizar essa geração e garantir a vida das próximas”, disse.
De olho no futuro
Nos estados amazônicos do Brasil, a bioeconomia ganha cada vez mais espaço. Em Rondônia e no Acre, iniciativas como o Programa Prioritário de Bioeconomia canalizam investimentos para projetos que se lançam à construção de um ecossistema estruturado.
Enquanto isso, no Pará, o Plano Estadual de Bioeconomia (PlanBio) se propõe a impulsionar o crescimento econômico e a inclusão social, protegendo a biodiversidade por meio de uma série de políticas públicas.
Os defensores dessas iniciativas dizem estar cientes dos problemas que os aguardam. Segundo Jovani, da Mercur, a falta de interesse de um número maior de empresas tem a ver com desafios logísticos e questões de custo. Novas políticas, em sua análise, podem fomentar a participação e o envolvimento do setor privado.
“Seriam necessários subsídios para apoiar a inserção da borracha da Amazônia no mercado”, disse o especialista. “Já vimos empresas entrarem no processo e depois saírem — porque não tinham consciência da importância de comprar da Amazônia, mesmo com um custo maior.”
Enquanto isso, mesmo distante dos padrões da indústria, a extração do látex representa um meio de subsistência na TI Igarapé Lourdes, segundo José Gavião.
“Quando falamos da Amazônia, de protegê-la, temos que pensar na sociedade que vive lá dentro. O objetivo da nossa cooperativa é justamente esse: trazer valor aos produtos que existem na floresta. Só assim vamos conseguir mantê-la em pé por muitos e muitos anos.”
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Curiosidade
A palavra ‘Jamaxi’ vem de origem indígena. É conhecido como o cesto, no qual, os seringueiros carregavam suas mercadorias.
