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Empreendedora da Amazônia espalha sementes em papel reciclado

Em Altamira, um pequeno negócio transforma papel reciclado em folhas com sementes que germinam em flores, ervas e até plantas nativas.

Rafael Spuldar - Mongabay por Rafael Spuldar - Mongabay
06/02/2026
em Meio Ambiente
Empreendedora da Amazônia espalha sementes em papel reciclado

Flor de manjericão. Foto: Leonardo Ré-Jorge via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

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Altamira, no Pará, é o maior município do Brasil em área; maior do que Grécia ou Portugal. Altamira é também o município mais desmatado da Amazônia brasileira: um lugar onde “desenvolvimento” costuma ser sinônimo de desmatamento, degradação ambiental e, às vezes, de violência decorrente de conflitos entre ambientalistas, madeireiros e grileiros.

Foi em Altamira que Alessandra Moreira nasceu e foi criada, e onde trabalhou como assistente administrativa até enfrentar episódios sérios de ansiedade e depressão. Exausta, ela deixou o emprego sem saber o que faria depois. “Eu tinha crises de pânico, não sabia o que estava acontecendo”, diz ela. Uma sugestão do seu irmão mudou tudo: por que não tentar fazer papel-semente?

Como resultado, Alessandra fundou a Ecoplante, uma empresa que produz folhas de papel reciclado com sementes incorporadas, capazes de germinar vegetais, ervas e flores. O que começou como um projeto de cura pessoal se tornou um exemplo de harmonia entre criatividade, empreendedorismo e sustentabilidade em um dos ecossistemas mais frágeis do mundo.

O papel-semente é produzido a partir do papel descartado, transformando-o em novas folhas com sementes incorporadas. O processo começa misturando-se a polpa reciclada à água, que é depois espalhada sobre uma tela fina e coberta com sementes — desde ervas como manjericão e rúcula até flores como margaridas. Depois de seco, o papel pode ser usado normalmente e, em vez de ser jogado fora, plantado. Ao se decompor, ele libera as sementes, que germinam e transformam o que seria lixo em vegetação.

Em 2023, Alessandra e seu irmão começaram a fazer experimentos com sobras de papel reciclado e utensílios caseiros, como liquidificadores, telas de nylon e molduras de madeira. “Nossas primeiras folhas foram um desastre”, diz, rindo. Mas o processo lhe trouxe algo inesperado: foco e cura. “Eu não tinha mais tempo para chorar. Minha mente estava fixa em como produzir um papel melhor.”

Alessandra não desistiu, mesmo após enfrentar alguns obstáculos, como dificuldades financeiras e abortos (ela tem um filho de 9 anos e uma bebê). Ela refinou o processo por meio de tentativa e erro, com a ajuda de tutoriais no YouTube. Nos primeiros meses, tudo era improvisado, das máquinas às embalagens. Mas ela persistiu. “Eu queria que Altamira fosse conhecida por algo além do desmatamento.”

Hoje, Alessandra e sua pequena equipe produzem o papel manualmente no quintal de casa, usando equipamentos simples feitos com materiais do cotidiano. O papel reciclado é triturado, transformado em polpa e espalhado sobre uma tela para remover o excesso de água. As sementes são distribuídas manualmente ou com uma lata perfurada, garantindo uma distribuição uniforme antes de serem prensadas e deixadas para secar naturalmente ao sol.

 

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Sustentabilidade e empreendedorismo

O ponto de virada da Ecoplante veio no início de 2024, quando Alessandra entrou no Sustenta e Inova, uma iniciativa financiada pela União Europeia para apoiar negócios sustentáveis na Amazônia. “A Ecoplante realmente começou quando entrei no programa”, disse ela. “Ele me ajudou a entender qual problema meu negócio resolvia, que era o descarte inadequado de papel, e depois a me posicionar como um negócio verde.”

No programa, ela aprendeu a precificar seus produtos, identificar clientes-alvo e apresentar sua empresa a investidores. “Aprendemos a ter um olhar mais crítico sobre o negócio, a melhorar tudo, da identidade visual ao marketing”, disse. Hoje, a Ecoplante fornece papel-semente personalizado para marcas sustentáveis, convites de casamento e embalagens. Seus clientes estão além do Pará, como São Paulo, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina. Em agosto de 2025, a Ecoplante se tornou oficialmente a primeira papelaria do Pará certificada como empresa sustentável.

Segundo Paula Couceiro, gerente de projetos do Sebrae Pará (empresa gestora do Sustenta e Inova), a Ecoplante representa o tipo de inovação de que a Amazônia precisa. “O objetivo é transformar a preservação ambiental em modo de vida”, diz. “Quando as pessoas veem que a sustentabilidade pode gerar renda e dignidade, elas deixam de ver a floresta como um obstáculo e passam a vê-la como oportunidade.”

 

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A criatividade da Ecoplante vai além de rúcula e margaridas. Como essas plantas são de climas mais temperados e não nativas da Amazônia, o principal objetivo — e maior desafio — de Alessandra é produzir papel plantável com sementes de árvores locais. Trabalhando com grupos extrativistas da região, ela já conseguiu produzir papel com sementes de jambu, erva tradicional da culinária paraense. Mas suas tentativas com outras plantas, como o ipê (valorizado por sua madeira) ainda não deram resultado. Ela explica que muitas sementes de árvores amazônicas são grandes demais para serem incorporadas ao papel, o que torna o processo bem mais complexo.

Para superar isso, ela começou a pensar além do papel. Para incluir sementes maiores, Alessandra criou o lápis-semente. Na extremidade do lápis, onde normalmente fica a borracha, há uma pequena cápsula transparente que armazena as sementes até o lápis ser usado. Quando estiver curto demais para escrever, basta plantá-lo diretamente no solo para germinar.

O lápis ainda está em fase de testes, mas Alessandra vê grande potencial nele. A ideia já chamou a atenção de escolas e empresas de brindes sustentáveis, fazendo desta uma das inovações mais promissoras do negócio.

 

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Um novo modelo de crescimento na Amazônia

Por décadas, a região de Altamira, na bacia do Xingu, esteve associada a grandes obras de infraestrutura. Projetos ambiciosos, como a Rodovia Transamazônica e usinas hidrelétricas, provocaram ondas de migração que degradaram severamente o ecossistema. Embora o risco ainda exista, a região também é um lugar onde novos modelos econômicos estão surgindo. A Ecoplante é de uma geração de negócios locais que veem prosperidade além da extração.

“A bioeconomia precisa fortalecer os ecossistemas e as comunidades locais, não substituí-los”, diz Mariana Oliveira, diretora de florestas e uso da terra no World Resources Institute Brasil. “Quando pequenos empreendimentos demonstram que a produção sustentável pode gerar empregos e dignidade, eles ajudam a redefinir o desenvolvimento da região.”

Ela acrescentou que, para cada real investido em atividades da bioeconomia no Pará, o retorno potencial inclui R$ 1,13 no PIB e R$ 0,19 em salários. Este é um indício de que manter a floresta em pé também pode ser lucrativo, apesar dos desafios.

Essa nova onda de empreendedores amazônicos também fortalece os meios de vida. Na rede Sustenta e Inova, negócios liderados por mulheres agora administram cooperativas de cacau, produção de mel e lojas de chocolates artesanais, provando que a floresta é um lugar onde a economia circular pode prosperar.

“Estamos vendo mais jovens querendo ficar, construir suas vidas aqui”, diz Paula, do Sebrae. “Antes, eles sonhavam em ir para grandes cidades. Agora, eles percebem que podem ter uma boa vida em suas cidades, cercados pela natureza.”

 

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Para Roberto Porro, pesquisador sênior da Embrapa Amazônia Oriental, iniciativas como a Ecoplante representam a vanguarda de uma bioeconomia nova e inclusiva. “A Amazônia precisa de negócios sustentáveis que respeitem o conhecimento local e gerem valor sem destruir o capital natural.”

Roberto, que coordena pesquisas sobre modelos sustentáveis de produção, afirma que essas microiniciativas podem gerar efeitos em cadeia. “Quando uma empresa em Altamira consegue reciclar resíduos e conectá-los ao reflorestamento ou à educação ambiental, ela muda a lógica econômica da região. Mostra aos jovens que existem alternativas à pecuária e à extração de madeira.”

Quanto à Ecoplante, ela continua funcionando no quintal da casa de Alessandra, onde seu papel-semente seca sob o sol da Amazônia. “A Ecoplante ficou na minha casa”, diz ela “Ainda está lá hoje.” Para ela, a pequena escala não diminui o significado: cada folha produzida é uma vitória.

Seu papel-semente carrega histórias de recuperação, do trabalho feminino e de uma região que está ressignificando o progresso. Em Altamira, tão citada como símbolo do desmatamento, a Ecoplante prova que é possível fazer o crescimento sustentável florescer a partir do chão.

A cada folha de papel (ou lápis, quando ele estiver pronto), essas ideias criam raízes: no solo, nas escolas, em convites de casamento e na visão de uma Amazônia que cresce, mas dando algo em troca.

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Curiosidade

A palavra ‘Jamaxi’ vem de origem indígena. É conhecido como o cesto, no qual, os seringueiros carregavam suas mercadorias.

Tags: Agência JamaxiagenciajamaxiAmazôniaDestaquesEmpreendedorismoManausMulherNotíciasPapelSementes
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