Manaus (AM) – “Ele parecia saudável.” Essa é uma frase comum entre tutores que descobrem tarde demais que o cachorro estava infectado pela Dirofilariose Canina, popularmente conhecida como doença do verme do coração. A doença pode permanecer silenciosa durante meses ou até anos. Enquanto o animal brinca, corre e aparenta normalidade, o parasita é um nematódeo Dirofilaria immitis cresce dentro das artérias pulmonares e pode alcançar o coração.
A pesquisa “Dirofilaria immitis is endemic in rural areas of the Brazilian Amazonas state capital, Manaus”, coordenada por Ulysses Carvalho Barbosa, biólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e doutor em Biodiversidade e Biotecnologia foi publicado na revista científica Revista Brasileira de Parasitologia e na biblioteca eletrônica de periódicos científicos Scielo em 2023. O estudo identificou a transmissão local da doença em Manaus após mais de um século sem registros publicados.
O levantamento analisou 766 amostras de sangue de cães domésticos, coletadas entre 2017 e 2021. Foram identificadas uma infecção importada e 27 infecções autóctones (locais). A ocorrência foi maior nas áreas rurais do que nas regiões urbanas de Manaus.
Nas duas áreas rurais analisadas, a prevalência estimada chegou a 15,44%, enquanto, na região periurbana, foi de 1,22%. Já nas duas áreas urbanas pesquisadas em clínicas veterinárias, o índice foi de 0,35%.

Os dados publicados demonstram um contraste entre as áreas rurais, periurbanas e urbanas e serve de base para novos estudos sobre a ecologia dos vetores, a vigilância epidemiológica e a prevenção. Além disso, podem subsidiar políticas públicas de saúde animal e de vigilância dentro da perspectiva de Saúde Única.

“Embora novas investigações ainda estejam em andamento, alguns achados já permitem compreender melhor como a doença se distribui em Manaus e em seu entorno”, afirma Lucilly Vilar, graduanda em Medicina Veterinária e aluna de iniciação científica do Inpa.
Como o parasita chega ao animal?
A transmissão depende de um vetor: o mosquito. Quando um mosquito pica um animal infectado, pode ingerir formas jovens do parasita.
Após um período de desenvolvimento no próprio mosquito, as larvas infectantes podem ser transmitidas a outro animal durante uma nova picada.
“É uma doença cardiopulmonar transmitida pela picada de alguns insetos vetores e que acomete não só o cães e gatos, mas também animais silvestres e seres humanos”, explica Ulysses Carvalho Barbosa.
Doença silenciosa
Segundo o pesquisador Ulysses Carvalho Barbosa, a dirofilariose é uma enfermidade cardiopulmonar causada por um nematódeo e transmitida pela picada de insetos que atuam como vetores.
O problema é que o animal infectado pode aparentar estar saudável durante meses ou até anos. De acordo com Lucilly Vilar, graduanda em Medicina Veterinária, os principais sinais clínicos incluem tosse, cansaço excessivo e dificuldade para respirar.

“O animal é assintomático no início da infecção. Conforme a doença avança, os sintomas começam a aparecer e a se intensificar.”
Essa característica contribui para que muitos tutores procurem atendimento veterinário apenas quando a doença já está avançada, com alterações cardiovasculares estabelecidas.
Um dos principais desafios para o controle da doença é justamente seu caráter silencioso: o animal pode abrigar vermes adultos no organismo sem apresentar sintomas perceptíveis. Com a evolução da infecção, porém, o parasita pode provocar lesões nas artérias pulmonares e comprometer o coração.
Em casos mais graves, o número de vermes pode ser elevado e causar alterações cardiovasculares importantes. A doença pode ser fatal, especialmente quando o diagnóstico e o tratamento não ocorrem precocemente.
“Esse verme, quando chega ao coração do animal, é muito perigoso e pode leva-lo à morte súbita. O animal morre devido à quantidade de vermes presentes no coração”, destaca o pesquisador do Inpa, Ulysses Carvalho Barbosa.

Ele alerta aos tutores sobre a tentativa de tratar o animal por conta própria. O tratamento deve ser conduzido por um veterinário, após a confirmação da infecção e a avaliação das condições clínicas do animal.
“Você não deve, de maneira nenhuma, controlar por conta própria, ou dar remédio para combater esse verme, porque está arriscado de você matar o verme e matar o seu animal”, alerta Ulysses Carvalho.
Clima favorável: quente e úmido
A Amazônia possui clima quente e úmido, grande quantidade de ambientes aquáticos e elevada diversidade de mosquitos. Rios, igarapés, lagos, várzeas, chuvas frequentes e até plantas capazes de acumular água podem contribuir para a manutenção de criadouros.
Lucilly Vilar destaca que a prevalência tende a ser maior em determinadas áreas rurais e em ambientes próximos a rios e outros locais úmidos, onde os cães ficam mais expostos aos mosquitos vetores.
A pesquisadora ressalta, porém, que a grande diversidade de mosquitos amazônicos não significa que todas as espécies tenham a mesma capacidade de transmitir o parasita.
Para um mosquito atuar como vetor depende de fatores como fisiologia, longevidade, comportamento alimentar, densidade populacional e capacidade de permitir o desenvolvimento do parasita até a fase infectante.
Áreas rurais
Nas áreas rurais analisadas pelo estudo, a prevalência foi muito superior à observada na região urbana. Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que os programas de controle de mosquitos realizados em áreas urbanas de Manaus ao longo de décadas podem ter contribuído indiretamente para reduzir a transmissão da Dirofilaria immitis.
Os níveis mais baixos registrados nas áreas urbanas podem estar relacionados ao controle de vetores de arboviroses, como dengue, zika e febre amarela. Já nas áreas rurais, a combinação de ambientes favoráveis, presença de mosquitos e cães suscetíveis pode favorecer a manutenção do ciclo de transmissão.

Coleta de sangue de caninos na Comunidade do Livramento, em Manaus. Foto: Herryson Santeiro


“Áreas rurais onde o clima é quente e úmido durante todo o ano, com grande disponibilidade de criadouros, chuvas intensas e frequente, [além de] rios, igarapés, lagos, várzeas e plantas que acumulam água, fazem com que a prevalência seja mais alta”, explica Lucilly.
A pesquisadora destaca que diferentes mamíferos silvestres podem ser infectados por Dirofilaria immitis e, em determinadas circunstâncias, atuar como reservatórios naturais.
Entretanto, o cão continua sendo considerado o principal reservatório epidemiológico, devido à maior prevalência da infecção na espécie, à possibilidade de apresentar microfilaremia e à proximidade com os mosquitos vetores.


Mudanças ambientais
O cenário amazônico também levanta uma questão para a ciência: de que maneira o desmatamento, as mudanças climáticas e a expansão urbana podem modificar a circulação do parasita?
A resposta ainda não é definitiva no caso da dirofilariose, mas os pesquisadores apontam que essas transformações podem alterar a ecologia dos mosquitos e, consequentemente, modificar as condições de transmissão.

Lucilly e Ulysses explicam que existem evidências dos efeitos dessas mudanças sobre a ecologia dos vetores, mas ainda são necessários estudos de longo prazo na Amazônia para medir com precisão o impacto sobre a dirofilariose.
As mudanças climáticas não devem ser interpretadas automaticamente como causa direta do aumento da doença. O que existe é um cenário que merece investigação científica contínua.
Dirofilariose no Amazonas
Uma pesquisa realizada entre agosto de 2007 e junho de 2008, em Coari, no Médio Solimões, confirmou a presença de Dirofilaria immitis. Os pesquisadores analisaram amostras de sangue de 120 cães e identificaram microfilárias em 12,5% dos animais. O estudo intitulado Silva, AMA et al. “DIROFILARIOSE CANINA NO MUNICÍPIO DE COARI, ESTADO DO AMAZONAS, BRASIL”, foi publicado em 2008 na revista Archives of Veterinary Science, pelos pesquisadores: A. M. A. Silva, K. S. Almeida, J. J. N. Sousa e F. L. C. Freitas.
Já em Lábrea, no sul do Amazonas, uma pesquisa realizada entre janeiro e fevereiro de 2009 identificou a presença de Dirofilaria immitis em 44 dos 99 cães analisados (44,4%). Do total de animais avaliados, 33 eram provenientes da área urbana e 66 da área rural.
Por meio da Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) e do sequenciamento genético, os pesquisadores detectaram o parasita em 6 dos 33 cães da área urbana (18,2%) e em 38 dos 66 animais da área rural (57,6%). As sequências genéticas obtidas apresentaram 100% de identidade com as de Dirofilaria immitis, confirmando a identificação da espécie.
A frequência de infecção observada estava entre as mais altas já relatadas na América do Sul à época. Os resultados foram publicados em dezembro de 2014, na Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, no artigo Survey of canine tick-borne diseases in Lábrea, Brazilian Amazon: ‘accidental’ findings of Dirofilaria immitis infection. O estudo foi realizado por Herbert Sousa Soares, Luis Marcelo Aranha Camargo, Solange Maria Gennari e Marcelo Bahia Labruna.
Diagnóstico ainda é um desafio na Amazônia
Detectar a doença precocemente é muito importante, mas pode ser difícil em uma região marcada por grandes distâncias e locais de difícil acesso. Para Lucilly, comunidades ribeirinhas, indígenas e localidades rurais enfrentam dificuldades para obter o diagnóstico.
A confirmação da infecção pode envolver diferentes métodos. Entre eles estão os testes para detecção de antígenos, a pesquisa de microfilárias no sangue, teste de Knott modificado, filtração por membrana e diagnóstico molecular por PCR.

Exames como ecocardiografia e radiografia torácica também podem auxiliar na avaliação do animal. No entanto, esses exames nem sempre estão facilmente disponíveis na Amazônia.
Por isso, o biólogo destaca a existência de ensaios de PCR confiáveis e de baixo custo para identificar Dirofilaria immitis em amostras de sangue ou biópsias e defende que ferramentas diagnósticas sejam disponibilizadas à população de Manaus por meio de serviços públicos ou privados.
Prevenção precisa ser contínua
Em uma região onde os mosquitos podem permanecer ativos durante praticamente todo o ano, a prevenção não deve ser pensada apenas para períodos específicos.
“Em regiões como a Amazônia, onde a atividade dos mosquitos ocorre praticamente durante todo o ano, a prevenção contínua é muito mais eficaz e segura do que tratar a doença após a infecção”, comentou a estudante de Medicina Veterinária, Lucylli.
Segundo ela, as principais diretrizes internacionais recomendam a prevenção permanente para cães que vivem em regiões onde há transmissão.
“As diretrizes da American Heartworm Society e da European Society of Dirofilariosis and Angiostrongylosis recomendam que cães residentes em áreas endêmicas recebam proteção permanente contra a dirofilariose”, argumenta.
Além de proteger individualmente os animais, a prevenção pode ter impacto sobre a circulação do parasita na população. Ao reduzir a presença de microfilárias em cães infectados, diminui-se também a possibilidade de que os mosquitos adquiram o parasita e o transmitam a outros animais.
Infecções em humanos
A dirofilariose também pode atingir seres humanos, mas isso ocorre de forma diferente da infecção em cães. De acordo com Lucilly, a doença é considerada uma zoonose, porém o risco para a população humana é baixo. O ser humano funciona como hospedeiro acidental e terminal, e o parasita normalmente não completa seu ciclo de vida no organismo humano.
Casos humanos já foram descritos no Brasil, principalmente associados a manifestações pulmonares. O pesquisador do Inpa, Ulysses Carvalho Barbosa, observa que a maior incidência descrita na literatura científica está concentrada nas regiões Sudeste e Sul do país.
“A maior incidência da dirofilariose humana pulmonar está em São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, em Santa Catarina. Para a Região Nordeste ainda não há [registros desses tipos] caso assim lá”, conclui o pesquisador do Inpa.
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